Um indivíduo quer comprar um automóvel. Logo, vai a uma concessionária, escolhe o modelo e a cor desejada, preenche uma proposta de financiamento e aguarda pela aprovação do crédito. Porém, seu cadastro é rejeitado pela instituição financeira. Frustração!

Basicamente podemos caracterizar a frustração como o mal-estar emocional decorrente da impossibilidade da satisfação de um desejo ou necessidade, sob circunstâncias que estão além de nosso controle. São impedimentos, decepções e contrariedades, que exigem de nós uma atitude de subordinação que frequentemente não estamos dispostos a demonstrar.

É natural que experimentemos uma certa decepção diante de planos que foram interrompidos. É uma reação natural que pode ser benéfica quando nos motiva a refletir sobre os acontecimentos e a buscar novas soluções ou caminhos alternativos para alcançarmos nosso objetivo. "São situações em que homens educados, momentaneamente convertem-se em animais selvagens atacando a si mesmos, os semelhantes e o próprio Deus." No entanto, quando não há maturidade emocional, o indivíduo pode experimentar grande sofrimento, enclausurando-se sob as grades da tristeza, do pessimismo, do mau humor, do vitimismo e do isolamento social. Para estes, bastam pequenas contrariedades para desencadear explosões de irracionalidade. São situações em que homens educados, momentaneamente convertem-se em animais selvagens atacando a si mesmos, os semelhantes e o próprio Deus. Esses episódios coléricos deploráveis e lamentáveis prejudicam a integridade emocional e física dele próprio, além de prejudicar suas relações sociais.

Desde tempos remotos, o homem busca compreender e controlar o mundo natural. Fazemos isso por instinto de proteção e para garatirmos nossa subsistência. A vida humama é angustiante, somos uma das poucas espécies animais que têm conhecimento da própria morte, sabemos que o passado não volta mais e que por mais que desejemos saber sobre ele, o futuro não existe, é imprevisível. Para tentar diminuir esta angústia, buscamos cada vez mais exercer o controle sobre o mundo que nos cerca. "A fé é uma espécie de confiança que nos permite viver em paz no momento presente." Mas uma coisa é certa: esse controle não existe. O Espiritismo nos ensina que a fé é uma espécie de confiança que nos permite viver em paz no momento presente. Se existe realmente um ser capaz de criar e manter as galáxias em perfeita harmonia, nada poderia nos acometer que também não se submetesse ao Seus desígnios. Sendo assim, quando entregamos o controle a quem realmente o possui, estabelece a principal virtude a ser desenvolvida para vivermos uma vida leve e feliz: a humildade. O oposto de humildade é o orgulho e este é a principal causa da grande maioria, ou talvez - arrisco dizer -, da totalidade de nossas dores.

O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. Que sucede então? – Entregai-vos à cólera.

Um Espírito Protetor em O Evangelho Segundo o Espiritismo

Na citação acima o Espírito que assina como "Um Espírito Protetor", nos adverte que nos julgamos mais do que somos. Mas como saber quem verdadeiramente somos? Ao contrário do que parece o orgulhoso possui uma baixa autoestima, e por sentir-se menor que os outros, vive uma vida competitiva, cujo objetivo é ser o mais rico, o mais inteligente, o mais belo, o mais feliz, ou seja, melhor do que todos. E como sempre haverá quem seja mais rico, mais inteligente e mais belo, ele inevitavemente se sentirá inferior, transformando sua vida numa sequência de batalhas contra todos que o cercam.

O orgulho cega. O orgulhoso não têm coragem de olhar para si próprio e se deparar com a realidade. Assim como observamos o mundo natural para compreendê-lo e depois modificá-lo, o mesmo processo deve ser aplicado à nossa natureza íntima. É imperativo que reconheçamos nossa real condição, para que nos submetamos às experiências necessárias ao nosso progresso espiritual, afinal de contas, quem é que se medica sem julgar necessário, sem estar doente realmente?

Enquanto não empreendemos a inevitável viagem com destino às profudenzas de nosso ser, ficamos na superfície, num mundo de sombras e ilusões, onde julgamos exercer controle sobre as coisas e as pessoas ao nosso redor. Não há problema em reconhecer as próprias limitações, e isso jamais deve ser motivo para nos sentirmos culpados ou inferiores. A humildade produz um sentimento de igualdade. Pouco importa o que fizemos no passado para nos trazer até onde estamos, o que vale realmente é nossa conduta no presente. É a verdade serena que nos conduzirá em segurança até nosso destino, enquanto realizaremos todas as nossas potencialidades. Todos podemos cair, mas, permenecer no chão é uma escolha.

Quando Chico Xavier, respondeu a um elogio desconcertante, afirmando-se não considerar a si próprio mais do que um verme que caminha sobre a Terra, foi admoestado pelo benfeitor Emmanuel da seguinte forma:

O verme é um excelente funcionário da Lei, preparando o êxito da sementeira pelo trabalho constante no solo e funciona, ativo, na transmutação dos detritos da terra, com extrema fidelidade ao papel de humilde e valioso servidor da natureza... Não insulte o verme, pois, comparando­-se a ele, porquanto muito nos cabe ainda aprender para sermos fiéis a Deus, na posição evolutiva que já conseguimos alcançar.

Espírito Emmanuel em Ramiro Gama, Lindos Casos de Chico Xavier

Nessa importante lição, o benfeitor espiritual esclarece que cada ser tem sua própria responsabilidade e que não podem ser comparados entre si. Desta forma, podemos somente comparar o que somos com o que podemos ser e perguntar: será que somos tudo o que um homem pode vir a ser? Somos os únicos responsáveis pelo que nos tornamos, mas, acreditamos que o mundo nos deve algo, que nossos pais nos devem, que nossos professores, nossos patrões, nosso companheiro ou companheira, enfim, que o próprio Senhor da criação nos deve algo. E como consideramos que a dívida não é paga, nos sentimos profundamente contrariados com todos.

O orgulho nos torna controladores e manipuladores. Todos devem se submeter ao nosso comando. Nos ofendemos profundamente quando as pessoas exercem seu livre direito de pensar e de agir, sobretudo quando suas ações não correspondem às nossas expectativas, afinal, é irritante perceber que não somos tão poderosos quanto julgamos ser. Assim, quanto mais poder e controle almejamos, mais sofremos. Ao contrário, quando nos percebemos como parte da natureza, como simples células integrantes de um imenso e complexo organismo, e nos empenhamos para realizar nossa tarefa com dignidiade, melhor vivemos. Esta é a boa vida.

Se todos somos responsáveis pela nossa própria evolução, os pais ainda carregam a resposabilidade maior de observar e identificar as más inclinações dos filhos, e auxiliá-los a se desvencilharem do jugo do orgulho. A disciplina é um dos aspectos fundamentais no processo de educação dos filhos. Crianças que têm todos os seus desejos e caprichos atendidos, tornam-se adultos facilmente frustráveis. "Pais ausentes, que trabalham o dia todo e deixam os filhos com os avós ou com estranhos, acabam por alimentar um sentimento de culpa que os tornam incapazes de negar quaisquer pedidos dos filhos, submetendo-se cegamente aos seus caprichos." Definir limites e cuidar para que eles sejam respeitados é fundamental para criar um adulto consciente de sua posição e capaz de lidar com situações inesperadas. Pais ausentes, que trabalham o dia todo e deixam os filhos com os avós ou com estranhos, acabam por alimentar um sentimento de culpa que os tornam incapazes de negar quaisquer pedidos dos filhos, submetendo-se cegamente aos seus caprichos. Crianças que não sabem lidar com frustrações convertem-se em adultos que tendem a evitar contrariedades a qualquer custo. Por que esperar várias horas num congestionamento se eu posso seguir pelo acostamento e ganhar alguns minutos?

Dizem por aí que a receita para se evitar as decepções é não criar expectativas com relação às pessoas, mas sejamos sinceros, é possível viver sem criar expectativas, se estas criam vínculos importantes entre os homens? É fácil viver alienado e distante, sem esperar que lhe façam nada. E isto não é também outra manifestação de egoísmo, pois assim, nada precisaríamos fazer aos outros? Não basta, que aprendamos a lidar com as contrariedades e decepções, aceitando que cada um é um ser histórico e único, e que portanto, deve ser compreendido e respeitado como tal? Entender que aprendemos e nos construímos exatamente pelas diferenças? Aceitar que somos responsáveis pela educação e pelo bem estar uns dos outros?

Antes desta encarnação, quando ainda estávamos no plano espiritual, possuíamos consciência de nossas necessidades evolutivas, desta forma, e com a ajuda de amigos benevolentes, traçamos as metas para a existência presente, com base nestas necessidades e em nossas capacidades. Será que nós mesmos não definimos uma existência mais simples e sem luxos? Por que, então, ficamos revoltados com os negócios ou com o emprego que não nos fornece as condições de viver uma vida mais sofisticada?

Frustrações são oportunidades para o exercício da paciência e da humildade. Aceitemos nossa real condição de vida, sempre lutando para melhorá-la, porém, sem expectativas surreais sobre nós mesmos e sobre as pessoas ao nosso redor. Vivemos num planeta de expiações e provas. O que esperar da vida além de oportunidades de resgate de antigos comprometimentos e de oportunidade para demonstrarmos nossos valores e seguirmos adiante? Nunca nos esqueçamos que sempre há um tempo de plantar e outro para colher. Cabe a cada um de nós a tarefa de descomplicarmos nossas vidas. Pé na estrada e fé na Providência Divina, um dia de cada vez.

Força Sempre!

Sobre o autor

Wilson R. GarciaTrabalhador ativo no movimento Espírita, Wilson R. Garcia integra o quadro de palestrantes da USE Piracicaba. Como voluntário da União Espírita de Piracicaba, atuou no planejamento e organização de atividades doutrinárias e eventos. É um dos idealizadores da União Rádio Web onde atua como narrador, diretor musical, produtor e responsável técnico. É apresentador e comentarista do Programa Visão Espírita desde o ano de 2014. Profissionalmente é programador e atua na área de comunicação e marketing digital. Casado com Regina Garcia e pai de Jennifer Garcia.